Um olhar positivo em meio as rejeições

Quando os membros da União Star Wars decidiram fazer uma conscientização das prequels, pensamos em inúmeros formatos de materiais para que o fã de Star Wars refletisse sobre a obra, nem tanto era pra gostar das prequels, mas compreendesse que ela, apesar de inferior a trilogia clássica, tem uma incrível responsabilidade de trazer uma geração inteira de novos fãs que mantinham a chama do amor ao folclore espacial aceso.

A minha idéia de princípio, foi um texto rebatendo as reclamações que ao ler, não me desciam certas argumentações infundadas contra a obra, uma vez que cinema é meu ofício e noto tantas obras realmente deficientes surgindo e essa turma fazendo vista grossa a tantos Transformers, quartetos e Esquadrões Suicidas para ainda hoje usar do mesmo discurso de ódio contra os filmes. Ali senti que o caminho pode beirar um esclarecimento sem confronto direto. E assim passou pela minha cabeça convidar uma série de pessoas que passaram pela minha vida em cinema e que contribuiria de alguma maneira.

O texto que com honra abro a sessão de artigos sobre prequels é de um amigo que justamente não gosta destes três primeiros filmes, porém, consegue enxergar um problema de contextualização temporal e retirar pontos positivos que a obra apresenta e que muitas vezes os que chamamos de “haters” não tem uma capacidade de articulação e troca de informações (talvez porque muitas vezes nem as tenham) para apreciar uma obra independente se gostamos ou não. E o cinema abre este precedente.

Leandro Caraça é meu parceiro de análises, críticas, apreciações e convivência em mostras de cinema. É um orgulho ter um artigo como este que busca históricamente a desconstrução de um desencontro de um criador, sua criatura e seus apreciadores.
Boa leitura a todos.

Vebis Junior – 501 st Legion Divisão Brasil  e Sociedade Jedi

Gostar ou não gostar da segunda trilogia de Star Wars? Essa é uma questão que me incomodou por muito tempo. Assim como milhões de fãs pelo mundo, eu estava lá no dia da estreia nos cinemas nacionais de A Ameaça Fantasma, e meu carinho pela saga de George Lucas não estava abalado. Nessa época, a coisa estava pendendo mais para o lado positivo. Hoje posso dizer que a força está em equilíbrio. Se eu tenho problemas com os episódios I, II e III, também tenho em relação ao fechamento da saga original. E que vai muito além da presença dos Ewoks em O Retorno de Jedi.  O passar do tempo me fez perder um pouco da afeição que tinha com os filmes da minha infância e da minha adolescência. Tratá-los menos como filmes especiais, e mais como parte em conjunto do cinema mundial.

De Volta Para o Futuro - Direção Robert Zemeckis

De Volta Para o Futuro – Direção Robert Zemeckis

O senso crítico me fez reavaliar essas obras além do que elas originalmente significaram para mim. Quem dera que todas mantivessem a qualidade de uma trilogia De Volta Para o Futuro ou das três primeiras aventuras de Indiana Jones.  Bem, pelo menos (no meu julgamento) são as que não tiveram um desnivelamento acentuado de um filme para o outro. Reparem que já estou me desculpando antecipadamente da minha análise, afinal não quero adentrar neste espaço, para o qual fui convidado, de maneira violenta e desrespeitosa. Sou bastante crítico ao cinema pipoca contemporâneo, e também me dói ficar levantando problemas referentes ao que assistia nas Sessões da Tarde da minha juventude. Mas para isso servem as análises mais criteriosas das obras artísticas, que estão acima da simples admiração sincera, ingênua e por vezes cega, que todos temos em diversos momentos (e que nunca acaba). Acima de tudo, um filme comercial não deveria ser sinônimo de filme ruim. Tampouco deveria ser tratado como desdém, o que acontece não raro, mesmo quando suas qualidades são evidentes. Pessoalmente, prefiro o ótimo O Despertar da Força a qualquer um dos últimos ganhadores de Oscar de melhor filme e de melhor filme estrangeiro. Encaro o cinema contemporâneo fraco como um todo, e o motivo é que há poucos autores e poucos artesãos capacitados entre nós. Sem falar dos tais visionários, que pouco fazem para merecer tal pomposo título. O desnivelamento foi se acentuando e aos poucos fui perdendo boa parte do entusiasmo que esse tipo de cinema me dava. O olhar mais rigoroso me mostrou que no passado as coisas já eram bagunçadas.

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Conan, o Bárbaro – Diretor John Milius

Fico hoje me perguntando por que não mantiveram John Milius como diretor da sequência de Conan, o Bárbaro ou então, o que os produtores tinham na cabeça quando chamaram Richard Lester para transformar Superman II em um festival de piadas sem graça. E digo isso com todo o respeito que tenho por Richard Lester e Richard Fleischer, diretor de Conan, o Destruidor. Dois cineastas com uma importância em sua profissão que não será abalada por causa de filmes irregulares do período menos interessante de suas carreiras. Vamos então culpar os produtores, afinal nos anos 80 Hollywood já havia começado a virar o mercadão descartável, repleto de elefantes brancos e ouro de tolo que se apresenta hoje. Mas era possível sonhar. Como eram bons os primeiros filmes das séries mais famosas da época: Rocky, Tubarão, Conan, Superman, Star Wars, Rambo. A fase gloriosa do cinema pipoca dirão muitos. Pena que não foi bem assim. O nosso passado pessoal sempre é visto como um momento precioso e que não volta mais. Mas já nos anos 1980, os produtores e roteiristas conseguiram estragar diversas séries, o que não significa que elas perderam o poder de encantar o espectador. Afinal os primeiros filmes criaram personagens e situações tão fascinantes que perduram com o passar dos anos. Paralelo a essas produções germinou a última grande leva de diretores relevantes de Hollywood, que souberam pegar a ressaca dos anos 1970 e adaptá-la para os novos padrões da indústria da década de 1980. Não que hoje não existam bons cineastas, mas os números são bem menos expressivos. Nesse contexto, George Lucas foi uma figura central em vários aspectos, seja o financeiro, o tecnológico ou o comportamental. Star Wars mudou a forma de ver e fazer cinema para milhões de pessoas. Se Rocky Balboa foi a redenção do americano médio durante uma fase complicada da política americana, Luke Skywalker alcançou a identificação de milhões de jovens ao redor do mundo. Vamos sair de casa, viver uma aventura, ter um propósito, enfrentar os nossos pais. George Lucas renovou um gênero cinematográfico, refez mitos e produziu riqueza para uma indústria que a partir de então, se tornou mais voraz do que nunca. Sim, Star Wars ajudou a destruir a Nova Hollywood de diretores como Coppola, Scorsese, Altman, Ashby… mas, e daí ? Se não fosse Lucas teria sido outro. Era apenas questão de tempo da máquina de triturar de Hollywood perceber que poderia ganhar mais dinheiro do que nunca havia ganhado em toda a sua existência.

A Fortaleza Escondida - Diretor Akira Kurosawa

A Fortaleza Escondida – Diretor Akira Kurosawa

O problema é que Lucas rapidamente revelou uma faceta alinhada com os tubarões dos grandes estúdios. A diferença é que ele construiu um paraíso particular para si próprio. Nada de peixes maiores ou menores. Naquele mar só havia espaço para Lucas brincar com Star Wars. Ele abraçou sua criação sob todos os aspectos. Era ao mesmo tempo o criador-autor-visionário e o chefão-autoritário-capitalista-avarento. Assim como era capaz de produzir belos filmes de Akira Kurosawa, Francis Coppola e Paul Schrader, também foi capaz de transformar O Retorno de Jedi num desfecho menos sensacional do que os capítulos anteriores mereceram. Estamos enchendo os cofres de dinheiro, então qual seria o motivo de encerrar a série com um episódio tão sombrio quanto O Império Contra-Ataca? Se o problema do filme fosse só os Ewoks… Mas Lucas fez com que a maioria dos personagens perdesse suas características principais, tornando a trama mais previsível e palatável. Luke Skywalker manteve-se bem até o final, embora o mesmo não possa ser dito sobre Han, Leia e Vader. E o festival de conveniências foi digno de uma novela mexicana. Aliás, o universo de Star Wars é menor do que aparenta, como todo bom fã já descobriu faz um longo tempo.

Terminada a trilogia, por muito tempo Lucas escondeu os brinquedos. Satisfeito com as finanças geradas pelas reprises, bonecos, gibis, fitas de VHS, o criador daquele universo sentou no trono e viu que seu trabalho era bom. Claro que havia coisas como Howard, o Super-Herói que questionavam a sabedoria desse deus barbudo e sovina, filho de um contador da cidade de Modesto. Se um pato falante alienígena conseguiu abalar um império criado por Luke Skywalker e fortalecido por Indiana Jones, então estaríamos diante de um ídolo com pés de barro? Mas nada disso importou quando no final dos anos 1990, três cineastas consagrados (e com fama de reclusos) retornaram às telas após um longo hiato sem dirigir nada. Junto de Stanley Kubrick e Terrence Malick, estava lá George Lucas aparecendo em manchetes de jornal que anunciavam o novo capítulo de Star Wars. Era a consagração artística de Lucas, colocado ao lado de Kubrick e Malick, e ovacionado por viúvas da Ordem Jedi e do Lado Sombrio da Força (outrora Lado Negro). O playground particular do deus barbudo seria compartilhado uma vez mais com os pobres mortais.

maxresdefault Num ano particularmente bom para o cinema americano, eis que A Ameaça Fantasma chegou com todo o estardalhaço que merecia. Como não poderia deixar de ser, o mesmo aconteceu com os dois capítulos seguintes, O Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith. Os filmes criaram uma nova geração de fãs, enfrentaram forte concorrência (Matrix, Senhor dos Anéis), colocaram George Lucas novamente na cadeira de diretor, sem precisar do auxílio de um capataz rigoroso como Irvin Kershner ou um operário-padrão como Richard Marquand.

Mas passada a ressaca, o que se viu foi a cisma da Força. De um lado, dissidentes que questionavam a abordagem da trama, a presença de personagens sem graça, atores fracos, ideias que ou contradiziam a história original ou a faziam ficar menos interessante. Do lado oposto, estavam os que enxergavam na nova trilogia qualidades tão formidáveis quanto os da anterior, que estavam felizes por poderem ver a história pregressa de Anakin Skywalker, Obi-Wan Kenobi, Yoda, C3PO, R2D2, fazer parte novamente ou pela primeira vez, desse acontecimento chamado Star Wars. De que lado eu me alistei? Confesso que cheguei a ser um descrente da Força nos anos que se seguiram, mas o mesmo aconteceu com a minha visão do cinema blockbuster de Hollywood, que a cada ano parece inchar mais e mais. Continuo a acompanhar os lançamentos, mas o que me anima é a presença de nomes de diretores que passam confiança (Steven Spielberg, James Cameron, Ridley Scott, etc.), e quase nunca o tema proposto. Exceção seja feito aos filmes do Marvel Studios, que costuma manter um padrão de qualidade acima da média atual, pontuada por Snyders, Bays e Emmerichs geralmente indigestos. Dessa forma, não enxergo as prequelas como bons filmes, mas também não descarto as virtudes que elas possuem. O trabalho de George Lucas nos episódios I, II e III ficou aquém das possibilidades narrativas de sua própria criação. É mais do que óbvio que Lucas esperou que os avanços tecnológicos pudessem dar carta branca para que ele continuasse a sua saga. A grandiosidade pretendida é mais que evidente em todos os três filmes. Não estava mais preso aos orçamentos restritos, efeitos especiais artesanais, a limitação do espaço. O playground ficará muito maior. E ele sabia que as pessoas iriam ver o novo show. Tudo estava no lugar certo. Ou não.

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George Lucas

O problema central é que nem a história, tampouco a parte tecnológica das prequelas estavam bem azeitados. O ambiente virtual das produções de cinema estava dando seu primeiro passo, e isso deve ser levado em consideração. Lucas estava retornando à direção de um filme depois de mais de duas décadas agindo como um produtor ranzinza e sovina. Seu trabalho como diretor de atores nunca foi dos melhores, ou mesmo seu tato para com os que estão trabalhando para ele. Em nível de comparação, Ridley Scott também sofria com essas críticas no começo da carreira e ao longo dos anos desenvolveu essa qualidade e hoje tem a confiança plena de muitos astros. Por sua vez, Lucas acumulou, graças às prequelas, desaforos e críticas de nomes como Terence Stamp, Natalie Portman e o saudoso Christopher Lee. A Ameaça Fantasma revisto hoje, mais se compara um protótipo da Apple que Steve Jobs lançava no mercado sem se preocupar com as possíveis falhas. Tanto Lucas quanto Jobs (esse então foi quase um equivalente na vida real de Loki, o deus da trapaça) sabiam bem que as pessoas pagariam da mesma forma, e que afinal, Star Wars era um conto de fadas espacial, somente um filme caro, como o deus barbudo costuma lembrar aos seus seguidores mais extremistas. Ainda assim é gritante (e evidente) o desconforto dos atores, quase todos eles atuando diante do vazio pela primeira vez, e que será depois preenchido pelos homens da computação. Não mais os arquitetos, carpinteiros, escultores de antes, mas profissionais que enchem a tela com o máximo possível de tranqueiras. A poluição visual dos céus de Coruscant deve ser uma das coisas mais horrendas já apresentadas num filme de ficção científica. Lucas já havia mostrado o que a computação gráfica em suas mãos poderia acarretar, visto os enxertos toscos na nova edição da trilogia original. O efeito de CGI virou um estimulante para Lucas e seus efeitos foram mais desastrosos do que eficientes. Comparado aos três citados anteriormente (Spielberg, Scott, Cameron), o olhar de Lucas para o resultado dos efeitos especiais ficou menos rigoroso com o tempo. E como são feios os designs finais da maioria dos alienígenas virtuais das prequelas, alguns deles como Sebulba e Watto parecem rascunhos feitos por quem não estava se levando muito a sério.

Boonta_Eve_PodracersMinha sequência favorita de A Ameaça Fantasma é a corrida de pods, quando o filme se assume de vez como um videogame (talvez o melhor ‘momento game’ já mostrado nas telas) e cria uma empatia verdadeira com o pequeno Anakin.  Dos personagens novos apresentados, Qui-Gon Jinn e Darth Maul possuíam cada um, conceito e potencial enormes. Mas os personagens mais interessantes do filme acabaram riscados do mapa, servindo apenas para dar partida à nova trama de George Lucas. Uma trama ambiciosa, envolvendo disputas políticas, tratados comerciais, clonagem humana, e uma semente de corrupção plantada na aparentemente pacífica República Galáctica. Pena que nos filmes anteriores, Star Wars nunca foi algo do tipo. A trilogia original, narrativamente, consistia nos heróis fugindo dos vilões, ou atacando para depois fugir de novo, e aí a Estrela da Morte explode e acabou. O acaso costuma ajudar os mocinhos e os roteiristas em muitas ocasiões. O tal “a certain point of view” dito por Alec Guinness em O Retorno de Jedi, se mostra um daqueles momentos mágicos (e constrangedores), onde você tem a impressão de que os atores vão largar tudo, dar as costas ao diretor e sair de cabeça baixa do set de filmagem. Lucas nunca foi um grande escritor, não no sentido literário da coisa, e sua dívida para com Akira Kurosawa, J.R.R. Tolkien e Jack Kirby são visíveis. E nem vamos falar do abortado projeto Duna de Alejandro Jodorowski. Além do mais, nas prequelas me incomoda o quanto Lucas destrata os próprios Jedi, caracterizando-os como arrogantes, burocráticos, e por várias vezes, ineficientes. Deixar um Lorde Sith se aproximar tanto do Conselho nunca teve lógica para mim, no sentido que faltou mais cenas explicando aquilo, dar consistência para a ideia (muito boa em sua essência). Explicar também qual era a vingança dos Sith (vamos enriquecer o passado de Star Wars nos filmes, George), o que levou à queda do galante Conde Dooku, qual exatamente era o rolo envolvendo o nosso querido mestre jedi Sifo Dias e o Conde Dooku, e que o público apenas saberia se lesse o universo expandido da época (e que hoje foi pro saco). Por que diabos o Dias encomendou milhares de clones e por dez anos, ninguém ficou sabendo. Provavelmente Palpatine e Dooku sabiam, mas custaria a Lucas detalhar isso ao público, ao invés de ficar criando cenários de ação com lógica de videogame? São detalhes que me incomodam e que poderiam engrandecer uma história que já nasceu épica. Mas Lucas teve pouca capacidade de mostra as intrigas palacianas de Star Wars com todo seu potencial.

STAR-WARS-EPISODIO-II-O-ATAQUE-DOS-CLONESPor muito tempo O Ataque dos Clones foi meu favorito da segunda trilogia, a toda a batalha da arena e a chegada dos Jedi e Stormtroopers continua emocionante. O duelo entre Yoda e Dooku (sim, vou manter o nome assim), apesar da falta de sutileza, foi talvez o momento mais genuíno de magia que as prequelas mostraram, comparada somente ao nascimento de Darth Vader em A Vingança dos Sith. Tenho hoje os três filmes em igualdade, cada qual com seus defeitos e controvérsia, e também virtudes que os colocam acima do lamaçal em que geralmente costumam transitar os blockbusters. De maneira alguma são obras sem personalidade, desprovidas de interesse. Pecam por ter um autor acomodado em diversos sentidos, mas que conseguiu ousar em outros. Se errou em aumentar a capacidade física dos jedi a ponto de se tornarem peças de videogame, Lucas provou que estava antenado com os filmes de artes marciais de Hong Kong, em especial os do gênero wuxia, com seus espadachins que desafiam as leis da gravidade. Lançado em 1999, A Ameaça Fantasma é anterior à febre desencadeada com O Tigre e o Dragão de Ang Lee. Em certo momento de A Vingança dos Sith, Obi-Wan Kenobi chega até mesmo a fazer um gesto com as mãos típico de um guerreiro de ação de filme chinês. Com todos os problemas que tenho com o personagem de Anakin Skywalker e o Conselho Jedi (sem falar daquele anfíbio ridículo e dos lactobacilos vivos que vivem nos jedi), é a figura de Palpatine/Darth Sidious que mais me encanta.

Ian Mcdiarmid - Imperador Palpatine

Ian Mcdiarmid – Imperador Palpatine

Somente em A Vingança dos Sith é que o vilão se mostra com toda a sua glória e poder. Ian McDiarmid foi de longe, muito longe, o melhor ator em cena dos episódios I, II e III. Depois de certa altura do filme, passa a dizer somentes frases que poderiam estar no balão de diálogo um vilão de quadrinhos da Marvel. Quando McDiarmid abre a boca para falar “Once more the Sith shall rule the galaxy and we shall have Peace” estamos diante de um grande ator transformando um trecho banal de roteiro em algo muito maior. Palpatine manda e desmanda do começo ao fim de A Vingança dos Sith. É a grande figura das prequelas, deixando todo e qualquer outro personagem comendo poeira. Seu discurso no Senado Galáctico, marcando o fim da República e o surgimento do Império é arrepiante. Ian McDiarmid conseguiu passar por cima da indignidade de estar atuando em um cenário vazio, em frente a uma tela de projeção, ao lado de atores usando roupas com pontos de luz, para um diretor mais preocupado com o trabalho de pós-produção do que das filmagens propriamente ditas. Momentos memoráveis como apenas os grandes vilões do cinema conseguem fazer, e tudo isso apesar do roteiro desarticulado de George Lucas. Palpatine abriu as portas para outras figuras nefastas e insidiosas de nosso tempo, como Lorde Voldemort, Frank Underwood e Michel Temer.

Passado mais de uma década após A Vingança dos Sith, eu voltei aos termos com a saga, mas não com as prequelas. Prefiro a descolada versão animada feita por Genddy Tartakovsky, que consegue tratar com eficiência todos os exageros mostrados por Lucas nos filmes. A série animada seguinte, que durou de 2008 a 2014, preenche a maioria das lacunas, e agora faz oficialmente parte do cânone. Star Wars em sua totalidade hoje está ligada aos subprodutos (desenhos e gibis) oferecidos pela indústria. Se por um lado mostra que a saga é uma marca acima de qualquer coisa, oferece mais possibilidades narrativas para a história. É esse paradoxo que George Lucas não foi capaz de resolver antes de vender seus brinquedos para a Disney. Agora podemos rever Darth Vader em toda a sua glória, seja nos quadrinhos atuais (muito bons), no desenho Rebels e no vindouro Rogue One. E o melhor, sem Lucas pra dizer que aquilo não vale nada. Tudo orquestrado de maneira coesa pelos lordes sombrios da Disney. Para coroar esse ressurgimento de Star Wars, o bônus que veio com O Despertar da Força, o melhor longa-metragem da série desde O Império Contra-Ataca e que – sem medo de ser feliz – confesso que gosto mais do que o original de 1977. Mesmo com a repetição de tudo o que já se viu antes (um planeta deserto, estrela da morte, sacrifício do herói mais velho etc, etc.), o sempre sem personalidade J.J. Abrams reciclou material anterior, mas com a ajuda do roteirista Lawrence Kasdan deu a partida para uma nova jornada. Com toda uma leva de personagens mais carismáticos do que quase tudo que as prequelas ofereceram. Mas não seria nada mal se trouxessem Darth Sidious de volta…

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Leandro Cesar Caraça
Mestrando na Unicamp, critico das revistas Cine Monstro,
Interludio e Boca do Inferno

About Lillo Pereira

2 thoughts on “Um olhar positivo em meio as rejeições

  1. Artigo muito completo e abrangente . Texto primoroso e ácido no que tange as criticas ao ex dono da franquia. Bem válidas !
    Gostaria de ter lido mais sobre pontos onde as prequels acertam .

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